Das Falácias

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João de S. Tomás

Santo Tomás editou um opúsculo sobre as Falácias, que é o XXXIX. E quase tudo o que pertence às falácias foi explicado tangendo os defeitos dos silogismos; pois as falácias são defeitos da consequência.

Pelo que apenas indicaremos aqui de que modo as falácias reduzem-se àqueles defeitos. Algumas falácias, portanto, pertencem à voz, algumas à coisa significada. As falácias da parte da voz reduzem-se à equivocação; porque esta falácia gera-se da aparência da mesma voz, ou porque a mesma voz significa muitas coisas, ou porque uma voz é semelhante a outra, seja na prolação, seja na significação, ou enfim porque a própria composição da oração dá-se com equivocação e anfibologia, assim como acontece naquelas que são aplicadas segundo o sentido composto e dividido, que é uma das falácias da dicção.

Reduzimos à equivocação todas as falácias que se mantêm da parte da dicção. E são seis os modos de falácias; dos quais três encontram-se nos termos simples, a saber: equivocação, diversidade de acento, figura de dicção. Equivocação, como se deste termo cão eu inferir que aquilo que convém ao animal convém ao astro. Diversidade de acento, como se se tomar por o mesmo pendere [pender] dito brevemente, e pendēre [pagar] longo; pópulus pelo álamo, produzida a primeira vogal, ou populus pelo povo, correpta aquela vogal. Figura de dicção é a semelhança da voz ou da significação com outra voz; como se uma voz que significa o masculino parecer significar o feminino, como se dissesses: A substância colorada pela brancura é branca; logo o varão, que é substância colorada pela brancura, é branca. Ou se a voz significante o qual [quale], v. g., a diferença, for mudada no quê [quid], isto é, na espécie, ou o qual quê [qualde quid] significante a essência neste algo [hoc aliquid], tudo isto pertence à figura de dicção. Da parte da oração, porém, encontra-se também equivocação em três modos, a saber: na anfibologia, que torna duvidosa a acepção da oração; na composição e na divisão, quando a saber se muda o sentido composto no dividido, ou ao contrário; e quando a oração é falsa no sentido composto, diz-se falácia da composição, quando porém é falsa no sentido dividido, diz-se falácia da divisão.

Mas, deveras, as falácias não da parte da dicção, mas da parte da coisa significada, reduzem-se aos outros defeitos acima atribuídos. E são sete as falácias deste gênero, a saber: falácia do acidente, falácia do secundum quid ao simpliciter, falácia segundo a ignorância do elenco [elenchi], falácia da petição de princípio, falácia do consequente, falácia segundo a não causa como causa, falácia segundo as muitas interrogações como uma.

Falácia do acidente é quase a mesma que a mutação da apelação; provém, pois, a falácia do acidente de que algo é significado como conveniente a dois que são per accidens um, e assim a unidade per accidens com a diversidade na coisa é a causa desta falácia: o que tudo é diversidade de apelação, ou a ela se reduz, seja à diversa acepção do médio; como: Conheço o que vem; Pedro é o que vem; logo conheço Pedro.

Falácia do secundum quid ao simpliciter reduz-se àquela que é do não distribuído ao distribuído, ou do não amplo ao amplo sem a constância, com a distribuição do amplo; como se dissesses: O Etíope é branco segundo os dentes; logo é branco simpliciter.

Falácia segundo a ignorância do elenco reduz-se ao defeito de oposição, porque aparecem alguns opostos e não o são, porque não se servem às leis da oposição; como se dissesses: A casa está fechada de noite, e não está fechada de dia; logo está fechada e não fechada.

Falácia da petição de princípio é quando se supõe, ou se assume, aquilo que devia ser provado; como se quisesses provar que Sócrates é pai de Platão e assumisses pelo médio que Platão é filho de Sócrates.

Falácia do consequente nasce do defeito daquela regra: Tudo o que se segue ao consequente de alguma boa consequência, segue-se ao seu antecedente. Pois, do fato de que estimamos algo ser consequente, e ter conexão com outro, inferimos aquilo daquele antecedente, quando todavia na coisa não possui conveniência; e por isso a falácia do consequente possui grande afinidade com a falácia do acidente; como se dissesses: Se alguém é ladrão, erra de noite; mas tu erras de noite; logo tu és ladrão; ou pelo oposto do consequente: Tudo o que é gerado tem princípio; mas a alma não é gerada, logo não tem princípio.

Falácia segundo a não causa como causa é quando se aceita pelo médio aquilo que verdadeiramente não é o médio, nem a causa de unir o predicado ao sujeito, e todavia parece ser a causa; como se dissesses: A morte é corrupção; logo a vida é geração; logo viver é ser gerado, porque a morte e a vida são contrárias: pois esta não é uma boa causa, porque não são contrárias, mas privativas.

Falácia segundo as muitas interrogações como uma é o engano proveniente de que por uma única interrogação perguntam-se muitas coisas, as quais exigem diversa resposta, e por isso por uma única resposta não se pode satisfazer, mas deve-se distinguir; como se dissesses: O Etíope é homem branco? O mel e o fel são doces? O homem e o cavalo são animal racional? Se, pois, por uma única resposta responderes afirmativamente, infere-se contra ti, dizendo: O Etíope é homem branco, logo é branco; se porém responderes negativamente, infere-se: Logo não é homem; e por isso deve-se distinguir a interrogação: que é homem, mas não branco.

Tradutor: Amadeus.
Fonte: João de S. Tomás. CURSUS PHILOSOPHICUS THOMISTICUS, cap. XIV.